CRISE DO CORONAVÍRUS: DESABASTECIMENTO X DESPERDÍCIO

CRISE DO CORONAVÍRUS: DESABASTECIMENTO X DESPERDÍCIO

FONTE: VAREJO BRASIL – http://www.revistavarejobrasil.com.br/crise-do-coronavirus-desabastecimento-x-desperdicio/

Por Vinícius Alves Abrahão, fundador da greentech XPrajá

O início da crise do COVID-19 trouxe alguns pânicos sociais que nunca tiveram muita correspondência com a realidade. Um deles é o famigerado risco de desabastecimento, algo que nunca teve correspondência na realidade.

É verdade que, no início da pandemia, houve problemas relacionados com a falta de determinados insumos médicos nas farmácias e supermercados. Álcool e máscaras estiveram em falta em muitas prateleiras, durante várias semanas. O desequilíbrio foi provocado em parte pela corrida da população para as compras e, em parte, pelo crescimento da demanda de instituições e profissionais de saúde.

O mesmo tem acontecido com determinadas medicações, sempre que o seu potencial curativo é ressaltado por alguma nova pesquisa ou autoridade de saúde, no Brasil ou no mundo.

É verdade que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) lançou uma nota expressando preocupação em relação à cadeia de suprimentos global provocados pelo COVID-19. De fato, com o eventual fechamento de alguns portos ou o afastamento de trabalhadores da indústria alimentar provocado pela pandemia, pode ser que alguns países enfrentem dores de cabeça em algum momento.

Porém, o que estamos vendo até agora é que novas ondas de infecção não tem se firmado em países que voltaram a abrir sua economia. O comportamento do vírus ainda não é muito claro para ninguém, de modo que é sim, possível, que as estimativas mais pessimistas não se materializem também nesse aspecto.

Celeiro abarrotado

O problema no caso brasileiro parece ser diametralmente outro. O país não tem o apelido de “celeiro do mundo” por qualquer razão. Na verdade, o mercado brasileiro de alimentos produz cerca de 7 vezes mais do que consome. Parte disso também se deve ao fato do setor ter sido incluído desde o início da pandemia no rol de “serviços essenciais”, o que permitiu que produtores continuassem trabalhando a todo vapor.

É claro que isso não é verdade para todos os setores da economia. A perda do ticket médio do brasileiro pode levar muita indústria de produtos com alto valor agregado a diminuir consideravelmente a produção, alterando sua disponibilidade no varejo. Produtos como a carne, por exemplo, tendem a enfrentar diminuição das vendas, enquanto o ovo, proteína barata e nutritiva, torna-se bastante procurado.

Por enquanto, o governo tem ofertado auxílio financeiro para milhões de brasileiros, mas não sabemos ainda com segurança como vai ser a retomada da economia e com que velocidade as coisas vão se recuperar. Ou seja, tudo vai depender de quanto tempo vamos demorar para recuperar os milhões de empregos perdidos pela interrupção da atividade econômica.

Por isso, o que tem preocupado a maior parte dos produtores de alimentos e insumos básicos é justamente o excesso de produtos nas prateleiras, provocados pelo desequilíbrio na oferta e na procura. O isolamento social respondeu pela mudança de hábitos de muitos brasileiros, que passaram a fazer compras mensais, o que influenciou diretamente a no aumento da demanda. Por outro lado, setores como a indústria de bebida verificaram crescimento considerável nas vendas, com as pessoas trancadas em casa na maior parte do tempo.

A guerra contra o desperdício

Em momentos de crise como o que estamos vivendo, mudanças assim geram consequências não intencionadas, muitas das quais difíceis de prever. Outras, nem tanto. A questão do excesso na indústria alimentar, por exemplo, é tema que venho martelando constantemente em artigos publicados desde o início do ano.

Um dos maiores desafios de qualquer indústria está numa correta estimação de demanda, para ajustar a produção. Em contextos normais, já existe perda média no faturamento que pode variar entre 3%, 5% e até 8% em alguns setores. No Brasil, em torno de 26 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas todos os anos. Desse total, em torno de 10% se dá na fase da colheita, 30% no transporte e armazenamento, 50% no comércio e no varejo e 10% nos domicílios.

As causas para o desperdício podem envolver como incidência de pragas e doenças, variedades pouco adaptadas, épocas de plantio e tratos culturais inadequados, manuseio e equipamentos incorretos, ponto de maturação, falta de limpeza e beneficiamento, armazenamento e embalagem inadequados, manuseio, transporte e transpiração incorretos, desconhecimento dos princípios nutritivos dos alimentos, forma de preparo, armazenagem e refrigeração inapropriada e até planejamento incorreto de compras.

Durante a pandemia, o aumento súbito da demanda deve agravar ainda mais esse cenário. De fato, muitas indústrias chegaram mesmo a duplicar ou até triplicar a quantidade de equipes engajadas na produção, para atender à procura súbita dos consumidores. O problema é que isso tem hora para acabar e fica a pergunta: o que fazer com tanto produto?

O álcool em gel, citado mais acima, é um ótimo exemplo disso. No início de março, o produto estava em falta nas prateleiras brasileiras. Várias indústrias adequaram sua produção para suprir a demanda, tentando aproveitar aquilo que parecia grande oportunidade de vendas. Agora, o produto sobra nas prateleiras e não se sabe muito bem o que fazer com tanto estoque.

Em tempos que a logística muitas vezes funciona na base do just in time, sem que grandes supermercados operem com as grandes centrais de abastecimento, isso pode influenciar ainda mais nas dificuldades que produtores tem de alocar o excesso nos locais em que mais se precisa em tempo hábil. É por isso que temos vistos tantas cenas de desperdício ao redor do mundo que chocam a opinião pública. Do leite jogado fora em Winsconsin às uvas apodrecendo na Índia, as razões de tudo isso residem nos desequilíbrios provocados pela crise.

Soluções sustentáveis

Nesse sentido, o mercado deve procurar desenvolver soluções sustentáveis para reduzir o desperdício. Infelizmente, esse não tem sido um tema pensado com o nível de engajamento necessário no país. É verdade que existem projetos como os desenvolvidos pelo Sebrae, por exemplo, que visam à conscientização de donos de restaurantes para redução do desperdício.

Por outro lado, já existe investimento de muitos governos locais na construção de redes colaborativas e disseminação de novas metodologias entre parceiros da iniciativa privada. Organizações Não-Governamentais se organizam em redes de solidariedade que ajudam a reduzir o desperdício, incentivam o consumo sustentável e beneficiam com alimento dezenas de instituições de caridade.

Porém, não se pode negar que a persistência do problema tem mais a ver com a quantidade ainda pequena de soluções no mercado que induzam o desperdício. Afinal, ninguém joga fora comida por que quer. Dificuldades de projeção, planejamento, armazenagem, distribuição, segurança, logística e articulação conspiram para transformar o descarte na solução mais rápida para muitas indústrias lidarem com o excesso.

Ainda melhor do que pensar em mudanças gerais de mentalidade, é utilizar as novas tecnologias para explorar essa dor, ofertando serviços de qualidade. Isso significa desenhar soluções para recolocação de produtos, que possam diminuir perdas no faturamento e contribuir para a disponibilização de produtos mais baratos para os consumidores brasileiros

Essa é a aposta do futuro para quem pensa num mundo sustentável.

Fonte: http://www.revistavarejobrasil.com.br/crise-do-coronavirus-desabastecimento-x-desperdicio/

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